"QUANTO A MIM, TENHO QUE LHES DIZER QUE AS ESTRELAS SÃO OS OLHOS DE DEUS VIGIANDO PARA QUE TUDO CORRA BEM. PARA SEMPRE. E, COMO SE SABE, SEMPRE NÃO ACABA NUNCA." (CLARICE LISPECTOR)



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Eu vivo na espera de poder viver a vida com você...


"A vida é repetitória em qualquer parte. Não importa se há um fenômeno muito importante no céu. Tão pouco se hoje à noite, depois de milênios, a chuva de meteoros perseídeas desabará sobre o mundo. Perseus é uma constelação muito distante mesmo e já não te encontro nem em mim, o que dirá fora.

Te escrevo sem a espera ansiosa que você desvende minhas linhas e perceba que no corpo frio de minhas palavras não existe nada além de você. Houve um tempo em que eu imaginava que se te deixasse pistas do quanto eu sinto tua falta, você viria de qualquer lugar para me acolher e transformar meu abandono num lugar de gerar belezas. Você não chegou, desapareceu no mundo que desde então passou a ser imenso, ou quem sabe fui eu que fiquei muito menor, não tenho certeza. Todos os dias o mesmo ritual: Saio de casa bem cedinho com meu estômago sempre embrulhado. Na rua existe um cheiro horrível. Imagino outras fragrâncias. Alecrim erva cidreira pela manhã, café feito em casa. Misturo cada aroma que tanto amo e outra vez estou no meio de teus poros, pois esse é teu perfume.

Penso em você constantemente e dói. Porque não dissemos nada, porque engolimos nosso silêncio como se isso fosse o mais natural do mundo. Fico perdido sem tuas mãos, esqueço de pedir a bênção final para nossos santos, não me entrego ao sacrifício, imolo o pior cordeiro de meu rebanho e ainda sim nomeio tudo isso o amor. Não sei se você saltou no mar enlouquecida pra salvar teus poemas, ou se agora você tem luzes de neon espalhadas por um corpo que não te pertence. Tenho um medo aterrador que você esteja infeliz e ao mesmo tempo me sinto infinitamente infeliz quando penso que pode ser que agora esteja em uma ilha perdida onde bebe outros vinhos. Sei que explicitando assim, pareço muito egoísta, mas acontece que só quero ter paz. Não quero ser Sísifo, não quero esperar você em frente a uma árvore torta. Só preciso acordar sem esse embrulho, sem estar tão exausto de simplesmente inventar tantos diálogos que nunca chegaram a ser.

Tenho um depósito de fantasias que se encontra bem no meio de meus dias. Coloco lá as putas mais sedentas, minhas perversões alucinadas, senhores que pedem dignidade e ganham esmola. Atrás de tudo isso, tento me esconder, mas tua imagem vai se mesclando e quando me dou conta a única coisa que sobra é você e você e você. Fico cabisbaixo, sem vida e me dou por vencido, deixo você fazer a festa em minhas memórias. No entanto sobra um gosto revoltado, pois a vida não pode ser só isso, deve ser plena, ampla, setembro sempre entrando. Acho desastroso quando fazemos da existência uma novelinha encantada. Detesto lamúrias-auto-cêntricas. Viver está mais pra ser grandioso, deve ultrapassar nossa própria imensidão, precisa ter algo que vá além da gente.

E eis-me aqui, sendo aquilo que eu mais desprezo. Entrego-me a essa autoflagelação e dou a luz a uma imensa pena de mim mesmo, alimentando as pequenas dorzinhas e pra quê? Puro narcisismo. Pura e doce mel-ancolia. Só que dentro de minha confusão, a ternura não cede, invade-me de novo. Tenho um olho atravessado pelo detalhe do sublime.

Tenho repetido que, no que depender de mim, sempre existirá doçura para ti.

Sinto saudade é claro, principalmente das pequenas coisas, aquelas que só temos consciência da grandeza e da importância depois de vividas. Coisas simples como te encontrar e perguntar como foi o seu dia ou se podemos levar peixes dourados para terras distantes. Queria te dizer coisas simples e bonitas, coisas que te mostrassem o quanto você continua importante, o quanto te guardo com carinho em muito de meus dias, coisas desse tipo, que talvez você compreenda como um abraço, ou talvez como uma mentira. Tanto faz.

Atiro-me na noite escandalosamente me confundindo com esses personagens de cabelos estilosos, all stars, tatuagens, de muitas línguas e de poucas falas. Nada me toca e nada me define. Fico nesse espaço do não pertencer e apenas me sinto em casa em alguma lembrança onde você esteja fazendo descontrolada uma imensurável desordem com pequenos movimentos que me dá conforto, que me traz esse aconchego que não me lembro muito bem se é uma invenção de meu desejo ou uma proteção contra essa vida que hoje tenho com quinas por todos os lados. Sem você, acabei assim, num quarto cheio de coisas espalhadas pelo chão, uma parede descascando, onde tudo que me toca também me machuca. Às vezes acho que não poderei agüentar e sinto uma vontade afogada de entrar na primeira coisa que se move e me deixar levar para sempre. É desse jeito mesmo, será que você pode imaginar o desconforto que tenho?

Você não sabe de minhas dilacerações e de meu coração habitado por uma fanfarra toda morta.

Fico esperando que venha sua nudez desesperada para que minhas mãos feitas de palavras passeiem por seus recônditos mais secretos. Tenho uma saudade louca, dessas que parecem que terminamos apenas ontem. Vontade louca de te buscar e estender meus braços dizendo está tudo bem. No entanto, com esquecimento repito em um tom dilacerado - não iremos nos ver por uma dessas lógicas que lutamos contra, mas que irremediavelmente seguimos com uma fé cega.

Amanhã, prometo, sempre haverá sol."

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